Na televisão vimo-la em programas como “Portugal Radical” ou “Curto Circuito”. Mas há dez anos trocou a caixinha mágica pela cabina de DJ. Comunicadora por natureza, diz que também o é por profissão, tanto quando está a pôr música como a criar conteúdos para o seu blogue. Numa correria constante entre projetos profissionais e a vida familiar, Rita Mendes teve na maternidade um motivo de força maior para se preocupar mais com a saúde.

Viver Mais e Melhor: O seu blogue, “Barriga Mendinha”, surgiu durante a segunda gravidez…

Rita Mendes: Sim, fez cinco anos. A Matilde nasceu em outubro, o blogue em setembro. Eu já escrevi muito, sempre o fiz e tinha tido algumas incursões em blogues, mas na altura escrevia algumas coisas no Facebook. Os blogues começaram a ter expressão e decidi experimentar este meio mais abrangente. Começou por ser um mummy blog e foi crescendo, agora é algo que acompanha a minha vida, um terceiro bebé, uma extensão de mim. Fico com dores de estômago quando estou mais alheada do blogue por causa de outros trabalhos, mas acabo sempre por voltar. A parte que exploro menos é mesmo a da música, porque acaba por ser algo contraditória com o papel de mãe, não faz sentido mostrar as festas às três da manhã.

VMM: O que mudou a maternidade nos seus cuidados de saúde?

RM: A maternidade mudou tudo. Como sou pouco persistente, experimento muita coisa e custa-me encontrar um foco. Mas mesmo antes de ser mãe sabia que caminho seguir e dava muita importância à parte espiritual. Acabei por enveredar por um trajeto profissional incongruente com isto, o que me fazia muitas vezes fugir do caminho certo. Comecei a fazer yoga e desisti, fui vegetariana durante seis anos – voltei agora a ser – mas comecei a comer tudo e mais alguma coisa quando trabalhava à noite. Ao ser mãe encontrei algumas rotinas, que me fizeram muito bem, de uma forma quase natural porque os miúdos assim o exigem. Deixei de poder saltar entre uma coisa e outra, porque os filhos não se querem hoje e amanhã já não, são para a vida. Comecei a acordar muito cedo, às sete da manhã, o que custou de início. Devo ser a DJ que menos sai à noite. Às dez e meia, onze horas - mesmo que nem sempre a dormir - já estou na cama. Já gostava de tratar de mim, mas ter filhos fez com que tenha vontade de estar cá por mais tempo e com saúde para cuidar deles. Quero ser uma mãe jovem e saudável. E transmitir-lhes os princípios em que acredito. Não para dizer apenas o têm de fazer para serem bons seres humanos, mas para mostrar como se faz, para dar o exemplo.

VMM: E como passa esses princípios, no que toca por exemplo a hábitos alimentares?

RM: Há duas coisas que mexem muito com as pessoas e em que todos se metem: a alimentação e a maternidade. Todos sabem como devem os outros ser mães e comer, o que é muito irritante porque são experiências únicas. Não se aprendem nos livros ou com conselhos das mães ou das amigas. Tem de ser à nossa maneira. Sou vegetariana, não vegan por uma questão social, mas acredito que o caminho é abolir a alimentação de origem animal. Os meus filhos receberam os mesmos princípios em relação a isto e são completamente diferentes. O Afonso é vegetariano como eu. A Matilde come carne, peixe, açúcar; diz que não quer ser saudável e que não a posso obrigar a ser como eu só porque sim. As refeições em casa são caóticas. O meu companheiro tem doença de Crohn, o que obriga a uma alimentação muito específica, o Afonso é vegetariano – mas não gosta de integrais e certas verduras. A Matilde só come asneiras e eu tenho uma filosofia muito ligada à macrobiótica. Adoro cozinhar e fico irritada quando tenho de fazer carne ou peixe grelhado, o cheiro até me enjoa, mas não sou fundamentalista.

Rita Mendes
créditos: Pedro Tavares Cardoso

VMM: E que papel tem o exercício físico no seu quotidiano?

RM: Estou ligada a um ginásio que tem vários locais onde posso, nesta minha azáfama, praticar diversas modalidades. Não gosto é de coisas muito fortes, que estão na moda, como o spinning. Faço musculação e cardio por uma questão física e também yoga e pilates. Não tenho rotinas de ginásio, mas tento ir duas vezes por semana, três quando estou mais livre.

VMM: Como combate o stress?

RM: Quando preciso de contrabalançar esta vida louca, faço retiros de meditação, mas não consigo ainda ter uma rotina. A minha meditação é acordar às sete e deitar-me à meia noite, usar óleos essenciais, estar com os miúdos antes de dormir a ouvir música, cantar e a contar uma história. E ir ao ginásio também é fantástico, não só pelo exercício, mas por poder tomar duche, pôr o creme sem as crianças a entrarem na banheira e roubarem a toalha. Aquela meia hora é ótima. Durante a semana gosto ainda de estar um pouco no meio da natureza. Adorava viver no campo, acordar às seis da manhã, meditar, passear à beira rio, comer coisas biológicas. Mas vivo em Lisboa, sou DJ, trabalho com digital, tenho filhos que fazem birras. Tenho de me adaptar, senão vou andar sempre à procura de um Santo Graal que nunca vou encontrar.

VMM: Acaba por ser uma ditadura da felicidade…

RM: Sim, há muitas linhas que exigem o que não podemos dar, até na área da saúde e do bem-estar. Andamos todos à procura de nos encontrarmos, até aqueles que dizem já ter conseguido. Esta insistência na busca do eu também assusta as pessoas, tal como assustava a massificação, do consumismo, das sociedades. Agora é ser feliz, encontrar o lado espiritual que também causa angústia. Temos de conseguir encontrar o meio termo.

Rita Mendes
créditos: Pedro Tavares Cardoso

VMM: Para além de vegetariana, fez uma dieta há dois anos que deu que falar.

RM: O meu meio é muito exigente, as miúdas que aparecem agora são todas magras, há que ter atenção. E, com a idade, o metabolismo fica mais lento. De repente, olhei-me ao espelho e senti que estava uma falsa magra. Há cada vez mais dietas loucas, que estão na moda e que são tidas como muito boas só porque funcionaram com alguém. Segui um caminho diferente, uma dieta com acompanhamento médico. Nunca tinha feito tantos exames. Consegui emagrecer dez quilos e aprender a fazer uma reavaliação alimentar.

VMM: E o vegetarianismo, como surgiu?

RM: Teve que ver com uma questão de saúde. Quando vivi no Porto engordei seis quilos e enjoei a carne. Vim então para Lisboa e ofereceram-me um livro de receitas vegetarianas. Experimentei porque estava saturada da cozinha tradicional portuguesa. Contactei também o Instituto Macrobiótico e aprendi a cozinhar algumas coisas, descobri um mundo novo. Agora faço também detoxes alimentares quando sinto que abusei: batidos de vegetais e frutos, sopa de miso como pequeno-almoço. O mundo da alimentação é cada vez mais complexo, temos de nos focar no que nos faz bem e não ir atrás de modas. Eu encontrei a minha verdade na macrobiótica.

VMM: Mas não é muito fácil com essa correria toda.

RM: Não sou fundamentalista. Um dia estou em Lisboa, noutro estou noutro sítio qualquer. Não consigo andar sempre com sandes de algas atrás. A alimentação deve ser a base, mas quando não é possível recorro aos suplementos, desde que naturais e não testados em animais. Agora ando com uma dor num joelho e tomo glucosamina que é boa para as articulações. Para as infeções, quando sinto que estou a ficar constipada, tomo alho e chá de gengibre e cebola. Como o menos possível quando adoeço e nada de laticínios.

VMM: E os 40 trouxeram também mais preocupações com a saúde?

RM: Não ia muito ao médico antes. Vou agora fazer o check-up dos 40 anos. O tempo passa depressa e quando se dá por isso já passou um ano e não se fez os exames. Se temos atenção com os filhos ou com os prazos de trabalho, também devemos ter connosco. Até aos 40, julgamo-nos imortais, mas a ida ao médico é algo a acrescentar à agenda no início do ano.

VMM: O envelhecimento assusta-a?

RM: Estou a encontrar caminhos profissionais para que isso não aconteça. Temos de nos sentir bem connosco mesmos, saber posicionarmo-nos. Há que encontrar a nossa postura. Pensei que aos 40 já não seria DJ, e acho que ainda hei de ser aos 50. Envelhecer preocupa-me mais em termos de saúde do que de imagem. Há que ter cuidados, não stressar demasiado, fazer uma boa alimentação, dormir bem, mas também é uma questão de sorte. Mas não precisamos de ser sérios e austeros só porque somos mais velhos, acredito que podemos ser crianças a vida inteira.