Prevenir e estar atento a sintomas como sangramento e mau hálito é fundamental para detetar a tempo as doenças das gengivas e evitar assim complicações que podem até afetar a saúde em geral. Fique a conhecer melhor os cuidados a ter com as suas gengivas numa entrevista à periodontologista Elsa Domingues.

Viver Mais e Melhor: Quais são as principais doenças das gengivas?

Dra. Elsa Domingues: As doenças que afetam as gengivas são sobretudo infecciosas e dividem-se em dois grandes grupos: gengivite e periodontite.

A gengivite carateriza-se por uma inflamação mais ou menos exuberante das gengivas, sendo o principal sintoma o sangramento gengival. Surge como uma resposta das gengivas à presença de bactérias. É tão frequente que, infelizmente, a maioria das pessoas pensa que é «normal» sangrar das gengivas, sobretudo quando escovam os dentes. Mas, na realidade, é um sinal de alerta.

A gengivite corresponde à fase inicial da doença das gengivas, sendo muito comum em adolescentes e mulheres grávidas devido às alterações hormonais. É curável, não deixando sequelas. Já a periodontite surge na sequência do agravamento da gengivite, quando esta não é tratada. Corresponde a uma fase mais avançada da doença gengival e implica perda de algum osso de suporte dos dentes.

VMM: Qual a faixa etária mais afetada pela periodontite?

DED: A doença afeta cerca de metade da população adulta, sendo mais frequentemente detetada entre os 40 e os 50 anos de idade, uma vez que os sintomas (acumulação de tártaro nos dentes, sangramento das gengivas e mau hálito) são muito reduzidos e menosprezados pela maioria das pessoas. Mas não quer isto dizer que não surja também em indivíduos mais jovens.

VMM: Que consequências podem ter as doenças das gengivas na saúde em geral?

DED: As doenças gengivais afetam muito mais do que as gengivas e os dentes. Desde 2015 que a Federação Europeia de Periodontologia se tem dedicado à divulgação das inúmeras relações entre estas e outras doenças. Está muito bem estudada a forte relação entre a periodontite e a diabetes e as doenças cardiovasculares. Também está provado que mulheres grávidas com periodontite correm um risco muito maior de ter bebés prematuros.

Quanto a outras doenças, a evidência não é tão forte, mas há cada vez mais estudos que relatam uma relação directa entre periodontite e doenças respiratórias (uma vez que as bactérias orais podem colonizar o sistema respiratório e causar infeções graves), doença renal crónica, artrite reumatóide, obesidade e alguns cancros. Isto explica-se pelo facto da periodontite implicar a presença de uma inflamação crónica localizada, no entanto, os mediadores inflamatórios são rapidamente disseminados por todo o corpo através da corrente sanguínea e vão exercer os seus efeitos em locais mais distantes da boca.

As boas notícias são que o tratamento da periodontite tem também efeitos na melhoria das várias doenças supra-citadas, nomeadamente na diabetes e na aterosclerose (doença cardiovascular).

Entrevista Elsa Domingues gengivas

VMM: Como se processa o tratamento das doenças gengivais?

DED: As doenças gengivais devem ser tratadas o quanto antes para minimizar as sequelas e a perda de dentes. Como muitas vezes as pessoas procuram tratamento já “demasiado tarde”, podem já ter perdido alguns dentes e os que ainda têm estarem “fora do sítio”, devido à mobilidade que apresentam. Nestes pacientes é possível fazer tratamento ortodôntico (aparelho dentário) para endireitar os dentes, no entanto têm de ser muito bem acompanhados por um periodontologista para não perderem mais dentes durante o tratamento.

Também é possível substituir os dentes perdidos por implantes, mas aqui, uma vez mais, o acompanhamento é fundamental, pois se a doença não for correctamente tratada, pode vir a afetar também os implantes dentários e levar à perda de osso à volta dos mesmos. O tratamento consiste na eliminação do tártaro e das bactérias que se alojam no sulco gengival junto ao dente, tanto à superfície como em profundidade. Este tratamento só é possível fazer em ambiente de consultório, com um dentista especialista em Periodontologia. Nalguns casos mais avançados da doença e, sobretudo, em pessoas fumadoras, o tratamento pode passar ainda por uma fase cirúrgica.

VMM: O que fazer então para prevenir?

DED: Neste tipo de doenças, o mais importante é a prevenção e a deteção precoce. Para melhor prevenir, aconselha-se a população em geral a visitar um dentista regularmente (pelo menos uma vez por ano), pois o dentista pode detetar a presença destas doenças e encaminhar para um especialista.

Uma vez que são doenças de origem infecciosa, o mais importante é adequar a higiene oral de modo a eliminar, diariamente, o máximo de bactérias da cavidade oral. Uma escovagem correta duas vezes por dia e a utilização de fio dentário ou escovilhões faz parte da higiene oral básica que ajuda a prevenir a maior parte das doenças orais.

VMM: O branqueamento pode afetar tanto dentes como gengvas?

DED: Não, desde que acompanhado por um profissional de saúde certificado. É possível encontrar certos tipos de branqueamento à venda nas farmácias, nos cabeleireiros e até online. Uma vez que a utilização de produtos de braqueamento com concentrações eficazes é restrita aos profissionais de saúde oral, os restantes produtos que se encontram no mercado não têm eficácia comprovada. Deste modo, garante-se que o braqueamento é sempre acompanhado por um profissional qualificado para tal, que analisa a estrutura dentária e seleciona a melhor técnica e produto para evitar que o tratamento faça mal aos dentes e às gengivas.

Não se aconselha branquear dentes que ainda não estejam completamente formados, por isso normalmente só é habitual fazer após os 18 anos de idade. Também está desaconselhado fazer branqueamento mais do que uma vez por ano, pois causa desidratação das estruturas dentárias e é preciso dar tempo aos dentes para recuperar. Alguns produtos mais concentrados (também com resultados melhores e mais rápidos) são muito agressivos para as gengivas, por isso só podem ser mesmo usados no consultório, onde o médico dentista vai fazer um isolamento especial das gengivas e deste modo protegê-las de eventuais queimaduras.